NR-1: cooperativas estão prontas para a nova agenda de gestão do trabalho?
O avanço dos problemas relacionados à saúde mental no ambiente de trabalho colocou o tema no centro das discussões sobre gestão organizacional. Em 2025, o Brasil registrou mais de 546 mil afastamentos por condições como ansiedade e depressão, segundo dados da Previdência Social. O número supera os 472 mil casos registrados em 2024 e representa crescimento superior a 60% em relação a 2023.
Contudo, o impacto desse cenário não se limita ao campo da saúde pública. Estudo da Organização Mundial da Saúde (OMS) aponta perdas de aproximadamente US$ 1 trilhão por ano à economia global em razão de transtornos relacionados à saúde mental.
Nesse cenário, a atualização da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1) amplia o escopo da gestão de segurança e saúde no trabalho ao exigir que fatores psicossociais passem a integrar o Programa de Gerenciamento de Riscos (PGR). A nova redação entrou em vigor em maio de 2025 e a fiscalização com possibilidade de penalidades está prevista para começar em 2026.
Nas cooperativas, o debate ganha relevância tanto pela diversidade de ambientes profissionais quanto pela complexidade das estruturas organizacionais do setor. Diante desse contexto, cresce entre dirigentes e gestores a pergunta que orienta este debate: as cooperativas estão preparadas para incorporar os riscos psicossociais à gestão do trabalho?
Nova leitura sobre riscos no ambiente de trabalho
A nova redação da Norma Regulamentadora 1 (NR-1) amplia o conceito de risco ocupacional ao incluir, explicitamente, os fatores psicossociais na gestão de segurança e saúde do trabalho. A partir de agora, a análise de riscos deve considerar não apenas o ambiente físico, mas também a dinâmica interna das equipes.
Isso significa que metas incompatíveis com a capacidade das equipes, indefinição de funções, conflitos recorrentes e lideranças excessivamente pressionadoras passam a ser tratados como fatores de risco passíveis de prevenção.
Para Kedson Macedo, consultor em governança corporativa, a medida representa uma mudança de paradigma pelo fato de reconhecer a organização do trabalho como estrutura produtiva como potencial geradora de sofrimento. Para ele, amplia-se a visão sobre o que de fato adoece o trabalhador. “Saúde e segurança deixam de se limitar ao ambiente físico e passam a incluir a forma como as atividades são distribuídas e conduzidas
Na prática, a norma reposiciona o debate através da responsabilização objetiva das empresas pela organização do trabalho. Segundo a consultora Fernanda Paiva, especialista em liderança emocional, a NR-1 “desloca o olhar do ‘caso individual’ para os elementos da organização do trabalho que podem aumentar a exposição ao risco psicossocial”.

“Ambientes em que há metas pouco claras, excesso de demandas e baixa autonomia tendem a aumentar significativamente a exposição ao risco psicossocial.” — Fernanda Paiva, especialista em liderança emocional
O desafio, agora, é traduzir essa nova exigência legal em mudanças concretas na rotina das equipes, o que passa necessariamente pela forma como o trabalho é desenhado e gerido no dia a dia.
Quando o trabalho se torna fator de adoecimento
O desenvolvimento desse debate ajuda a compreender por que determinadas rotinas profissionais acabam se transformando em fatores de risco para a saúde mental. Quando condições como sobrecarga, indefinição de responsabilidades e pressão constante passam a fazer parte do cotidiano das equipes, os efeitos tendem a aparecer gradualmente no funcionamento das organizações. Kedson explica que ambientes com essas características costumam gerar instabilidade institucional antes mesmo de produzir indicadores formais de adoecimento. Ou seja, o impacto inicial costuma surgir na capacidade de coordenação das equipes e na previsibilidade das atividades.
“A gestão dos riscos psicossociais exige que as organizações olhem para a forma como o trabalho é estruturado e não apenas para indicadores de saúde individuais.”– Kedson Macedo, consultor em governança corporativa
“Quando esses fatores se tornam recorrentes, o que aparece primeiro é instabilidade. A organização perde consistência, e isso tende a se expressar em clima, desempenho e sustentabilidade”, observa o especialista.
No dia a dia das organizações, essa instabilidade pode se manifestar por meio de conflitos frequentes entre equipes, queda de confiança nas relações de trabalho e perda de segurança psicológica no ambiente profissional. Entre os sinais mais frequentes associados à presença de riscos psicossociais estão:
- aumento do absenteísmo
- crescimento da rotatividade
- conflitos recorrentes entre equipes
- queda na qualidade das entregas
- aumento de afastamentos por adoecimento mental
Inseridas nesse entendimento, algumas cooperativas já têm buscado responder a esse desafio com iniciativas voltadas ao cuidado direto com os trabalhadores. A Cooperativa de Trabalho de Enfermagem do Paraná (COOENF-PR) implementou em 2025 um serviço permanente de atendimento psicológico aos cooperados, conduzido por uma profissional especializada.
O programa realiza cerca de 30 atendimentos mensais e inclui ações de conscientização sobre ansiedade, depressão e estratégias de enfrentamento emocional. A iniciativa surgiu a partir da percepção de que o trabalho na área da saúde expõe profissionais a níveis elevados de pressão e desgaste psicológico.
Há também casos em que a atenção à saúde mental se reflete em reconhecimento externo. O Sicoob Credija, por exemplo, foi certificado pelo terceiro ano consecutivo com o selo Great Place to Work (GPTW) e recebeu o selo Saúde Mental, concedido a instituições que adotam práticas institucionais de cuidado com o bem-estar emocional das equipes. O exemplo demonstra que ambientes psicologicamente seguros não apenas previnem adoecimento, como também se tornam vantagem competitiva.
O impacto regulatório da nova norma
A atualização da NR-1 também altera a forma como as organizações precisam estruturar seus processos internos. A gestão da saúde mental passa a integrar formalmente o Gerenciamento de Riscos Ocupacionais (GRO) e o Programa de Gerenciamento de Riscos.
Segundo Bruno Santos, CRO e sócio da área de Gestão de Terceiros da Bernhoeft, a principal mudança está na ampliação da responsabilidade das organizações na prevenção desses riscos. Para o executivo, a norma exige que empresas demonstrem de forma mais estruturada que monitoram fatores organizacionais capazes de gerar adoecimento emocional. “Na prática, a saúde mental deixa de ser um tema periférico e passa a integrar formalmente o GRO e o PGR. As empresas precisam demonstrar não apenas que oferecem equipamentos ou treinamentos técnicos, mas que também monitoram e previnem fatores capazes de gerar adoecimento emocional”, explica.

“A partir da atualização da NR-1, as empresas precisam demonstrar que possuem mecanismos estruturados para identificar e acompanhar fatores psicossociais no trabalho.” — Bruno Santos, CRO e sócio da área de Gestão de Terceiros da Bernhoeft
Esse cenário amplia a necessidade de integração entre áreas como liderança, recursos humanos e segurança do trabalho.
Em diferentes regiões do país, o sistema cooperativo já intensifica iniciativas de capacitação. Cursos e encontros técnicos têm orientado dirigentes sobre a incorporação de práticas preventivas relacionadas à saúde mental, com ênfase no Gerenciamento de Riscos Ocupacionais (GRO) e no Programa de Gerenciamento de Riscos (PGR).
Esse movimento já se materializa em iniciativas como a capacitação promovida pela OCB/RJ para discutir os impactos da NR-1 na gestão das cooperativas, e o curso “NR-01 Descomplicada: Fortalecendo a Segurança no Cooperativismo”, da OCB/RO, focado na aplicação prática da norma e na construção de uma cultura de prevenção nas organizações.
Cooperativas diante da nova agenda de gestão
No cooperativismo, o debate ganha alguns contornos específicos em função das características do modelo de governança e da diversidade de atividades exercidas pelas cooperativas.
Estruturas participativas são características marcantes do sistema, mas exigem clareza institucional para evitar sobreposição de responsabilidades e sobrecarga organizacional como reitera Kedson. Segundo o gestor, a definição clara de papéis e fluxos decisórios se torna elemento central para garantir estabilidade e coordenação no funcionamento das equipes.
“Quando há ambiguidade de responsabilidades, o trabalho tende a acontecer em modo reativo, com decisões que demoram, voltam ou mudam ao longo do processo”, defende Kedson.
Com a intensificação da fiscalização prevista para 2026, a gestão dos riscos psicossociais deixa de ser tendência e se torna obrigação. No cooperativismo, o tema passa a dialogar diretamente com governança, organização do trabalho e, em última instância, com a própria sustentabilidade do negócio.
NR-1: o que muda para as organizações
A atualização da Norma Regulamentadora nº 1 amplia o conceito de risco ocupacional e exige que fatores ligados à organização do trabalho também sejam considerados na gestão de segurança e saúde.
Entre as principais mudanças estão:
– Inclusão dos riscos psicossociais no Programa de Gerenciamento de Riscos (PGR);
– Integração com outras normas de saúde ocupacional, como NR-7 e NR-17;
– Necessidade de evidências e registros sobre avaliação e prevenção desses riscos;
– Maior integração entre liderança, RH e segurança do trabalho.
Fonte: MundoCoop