José Alves: Cultura cooperativista conecta história e futuro do movimento

Durante a abertura da Semana de Competitividade 2026, promovida pelo Sistema OCB, em Brasília, o presidente da ACI Américas, conselheiro da Ocesp e presidente da Uniodonto do Brasil, José Alves de Souza Neto, apresentou uma reflexão sobre a importância de preservar a cultura e a identidade cooperativistas em um momento de crescimento, inovação e ampliação do impacto do movimento.
Em sua fala, José Alves trouxe perspectivas do cooperativismo brasileiro e internacional, apresentou dados que mostram a cultura como uma questão estratégica para as cooperativas e destacou iniciativas de preservação da memória do movimento. Para ele, o desafio está em continuar avançando sem perder aquilo que diferencia o modelo cooperativista.
Confira, a seguir, a reflexão apresentada pelo dirigente durante a Semana de Competitividade:
É uma honra participar da Semana de Competitividade do Sistema OCB. E é ainda mais especial fazer isso justamente na edição CulturaCoop, dedicada a um tema que toca o coração de quem vive o cooperativismo no dia a dia: a nossa cultura, a nossa identidade e a nossa memória.
Falo a partir de duas experiências. Como presidente da Uniodonto do Brasil, acompanho de perto os desafios de um ramo que cresce, se profissionaliza e amplia seu impacto na saúde de milhões de brasileiros. E que, como tantos outros ramos do cooperativismo, precisa se reinventar a cada dia, manter sua competitividade no mercado e, ao mesmo tempo, continuar sendo, na essência, uma cooperativa.
E, como presidente da ACI Américas, tenho o privilégio de acompanhar esse mesmo desafio em diferentes setores, praticamente em todo o nosso continente.
O cooperativismo das Américas não é uniforme, e essa diversidade é uma das nossas forças. Cada país, cada ramo, cada cooperativa tem a sua própria história e a sua própria realidade.
Mas existe um ponto em comum que encontro nas conversas que tenho, do Canadá ao Cone Sul: a percepção de que o crescimento só é sustentável quando vem acompanhado de identidade.
Essa é uma preocupação que está presente em todo o continente e que também ocupa um lugar central na agenda global da Aliança Cooperativa Internacional.
É por isso que o Ano CulturaCoop me parece tão oportuno para ampliarmos a nossa perspectiva sobre esse tema.
O cooperativismo brasileiro vive um momento de crescimento, ampliando seu impacto, sua representatividade e seu reconhecimento institucional, inclusive fora das nossas fronteiras.
E, em meio a todo esse crescimento, o movimento teve a maturidade de fazer uma pergunta fundamental: estamos, de fato, preservando aquilo que nos torna cooperativistas?
A Pesquisa Nacional do Cooperativismo respondeu a essa pergunta com números que merecem a nossa atenção.
Entre os principais gargalos apontados pelas próprias cooperativas, 38% mencionaram a falta de cultura cooperativista, à frente da gestão ineficiente e da falta de acesso a recursos.
E, quando perguntadas sobre as prioridades para o futuro, 65% das cooperativas disseram que reforçar a cultura, a solidariedade e o trabalho em equipe é essencial. Outros 54% apontaram a necessidade de integrar a inovação ao DNA cooperativista.
A leitura é clara: a própria base do movimento já identificou a cultura como um fator estratégico de sustentabilidade. Não apenas como discurso, mas como uma prioridade concreta de gestão.
E essa percepção não veio de um único estudo. Ela também esteve presente no 15º Congresso Brasileiro do Cooperativismo, que consolidou cem diretrizes estratégicas para o futuro do movimento. Dez delas são diretamente voltadas à cultura cooperativista, um tema que, na verdade, apareceu de forma recorrente e transversal em praticamente todas as discussões.
Esse trabalho foi aprofundado, entre 2025 e 2026, por pesquisas históricas, conceituais, quantitativas e qualitativas, que nos ajudaram a entender melhor o que forma, o que sustenta e como transmitimos a nossa identidade ao longo das gerações.
E aqui quero trazer uma perspectiva que vem diretamente da ACI, porque o Brasil não está sozinho nesse esforço. Na verdade, está na linha de frente de um movimento semelhante, que acontece em escala global.
Em novembro de 2025, no Palácio do Itamaraty, em Brasília, a Aliança Cooperativa Internacional lançou oficialmente a Plataforma do Patrimônio Cultural Cooperativo e o primeiro Mapa Mundial de sítios históricos do cooperativismo.
É uma iniciativa que busca reconhecer e proteger tudo aquilo que expressa os nossos princípios: edifícios, museus e arquivos, mas também tradições, saberes e práticas cooperativas transmitidas de geração em geração.
E o papel do Brasil nessa construção não é apenas simbólico. Nosso país atua como mentor técnico e institucional do grupo de trabalho da ACI responsável por esse tema.
Há poucos meses, o presidente do Conselho de Administração da Sicredi Pioneira, Tiago Schmidt, assumiu a presidência desse grupo para o biênio 2026-2027. A Sicredi Pioneira é a cooperativa de crédito mais antiga da América Latina e está sediada em Nova Petrópolis, no Rio Grande do Sul.
Hoje, o Mapa Global do Patrimônio Cultural Cooperativo já reúne mais de trinta sítios, distribuídos em cerca de 25 países. E a Linha Imperial, em Nova Petrópolis, está presente nessa lista.
Mas esse trabalho não termina com o lançamento do mapa. O grupo já está trabalhando nos próximos passos dessa agenda. Entre eles, está a formação de um “círculo de prefeitos”, reunindo lideranças municipais das regiões que abrigam esse patrimônio, para integrar o cooperativismo às políticas culturais, turísticas e educativas dos respectivos locais.
Também está prevista a estruturação de um seminário internacional sobre o tema, com etapas de planejamento já em curso para os próximos anos.
Isso mostra que a preservação da nossa memória não deve ser uma iniciativa pontual, mas uma agenda contínua, com governança, estratégia e visão de longo prazo. E, neste momento, essa agenda tem uma liderança brasileira.
Cito o Tiago não por acaso. A atuação dele representa justamente essa ponte entre o legado histórico do nosso movimento e as iniciativas atuais de preservação da nossa cultura. E essa é exatamente a lógica que está por trás do Ano CulturaCoop.
Porque, quando falamos de memória, não estamos falando de nostalgia. Estamos falando de algo que nos ajudará a construir o futuro.
E é também por isso que a ACI tem dado tanta importância a esse tema. Porque cooperativas não são apenas empresas. O nosso modelo de negócio tem cultura, tem memória e tem identidade.
Preservar esse patrimônio, seja ele material ou imaterial, é uma forma de garantir que os princípios que nos unem continuem vivos, sendo ensinados e também reinventados por cada nova geração de cooperativistas, aqui e em todo o mundo.
E não é por acaso que a própria UNESCO já reconheceu a prática de organizar interesses comuns em cooperativas como parte do patrimônio cultural imaterial da humanidade.
O que a ACI está fazendo agora é dar corpo, dar um mapa e dar visibilidade concreta a esse reconhecimento.
E volto, então, à pergunta que abre este Ano CulturaCoop: como garantir que o cooperativismo continue crescendo sem perder a sua identidade?
A resposta que encontro, tanto aqui no Brasil quanto nas conversas que tenho pelas Américas e na ACI, é sempre a mesma: formando pessoas.
Formando lideranças conscientes, formando educadores capazes de disseminar a cultura cooperativista entre cooperados, colaboradores e a comunidade. E formando cooperados que entendam, na prática, por que fazemos o que fazemos e da forma que fazemos.
A programação da Semana de Competitividade foi pensada exatamente para isso: para nos levar das origens do cooperativismo brasileiro às questões mais atuais sobre o que significa ser cooperativista no século XXI, passando pela importância da nossa memória institucional e pelo impacto concreto que as cooperativas têm em suas comunidades.
Por isso, o convite é para que cada um assuma seu papel como parte ativa dessa construção coletiva. Porque é assim, com muitas mãos e muitas histórias, que uma cultura se preserva.
Porque, no fim, é a cultura cooperativista que conecta a história que construímos ao futuro que ainda vamos escrever.
E fortalecê-la é garantir que o cooperativismo continue crescendo, inovando e transformando vidas, mas sem nunca perder a sua essência.

