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Artigo: A epidemia sobre duas rodas: por que o cooperativismo precisa entrar nessa corrida

segunda-feira, 31 de agosto de 2026

Motos, patinetes e bicicletas elétricas disparam nas ruas brasileiras — e a conta já aparece nos sinistros da Unimed Centro Sul Fluminense.

Com base em artigo técnico de Gilson de Souza Lima — médico pela UFRJ, MBA em Gestão da Qualidade (FGV), especialista em Gestão de Saúde (FIOCRUZ) e Mestre em Gestão de Saúde pelo Instituto Universitário de Lisboa. Diretor Vice Presidente da Unimed Centro Sul Fluminense.

O número de motocicletas em circulação no Brasil cresceu 42% entre 2015 e 2024, ultrapassando 37 milhões de veículos — impulsionado pelo trabalho por aplicativo. Ao mesmo tempo, patinetes e bicicletas elétricas se multiplicam nas grandes cidades, puxados pela mesma lógica de entrega. Para especialistas em medicina de tráfego, o resultado já não é apenas um problema de trânsito: é uma epidemia de saúde pública que sobrecarrega o SUS e a saúde suplementar — e começa a pesar nos balanços de sinistralidade das cooperativas médicas e na Saúde Pública.

Duas frentes da mesma epidemia

Em 2024, o Brasil registrou 36.403 mortes em acidentes de trânsito, mais de um terço envolvendo motociclistas. No Rio, as internações por acidentes de moto quase dobraram em cinco anos, e as mortes subiram 29% só entre 2024 e 2025. O perfil das vítimas é específico: homens jovens de 20 a 39 anos, muitas vezes os próprios condutores, e mais da metade estava trabalhando por aplicativo no momento do acidente.

Patinetes e bicicletas elétricas seguem o mesmo caminho, em ritmo ainda mais acelerado: no município do Rio, os atendimentos de urgência por acidentes com esses veículos saltaram 702% em um ano. A frota nacional de bicicletas elétricas passou de 7,6 mil unidades em 2016 para 284 mil em 2024, turbinada pela logística de entrega. E há uma lacuna regulatória relevante: diferentemente das motos, a lei federal não exige capacete para esses veículos — apenas 6% das vítimas de patinete usavam capacete em levantamento internacional, contra 76% dos motociclistas.

O custo que chega às cooperativas de saúde

O impacto assistencial é direto: só nos dois primeiros meses de 2026, o SUS registrou 47 mil atendimentos e 28 mil internações por acidentes com motos, e o custo de um paciente politraumatizado pode chegar a R$ 400 mil em casos graves. Na saúde suplementar, internações longas e cirurgias complexas pressionam a sinistralidade das operadoras — custo que acaba repassado a toda a carteira de beneficiários.

Um número que fala por si

No 2º trimestre de 2026, o maior sinistro da Unimed Centro Sul Fluminense teve origem em um acidente de moto: mais de R$ 500 mil, com sequela permanente para a vítima. Entre o 1º semestre de 2025 e o de 2026, a despesa assistencial da cooperativa com acidentes de moto saltou de R$ 66.612,24 para R$ 617.143,79.

O que já se discute

Entre as respostas em curso, a infraestrutura é o ponto mais controverso: a Faixa Azul, sinalização exclusiva para motos criada em São Paulo e replicada no Rio, reduziu mortes em algumas vias, mas um estudo conjunto de USP, UFC e Instituto Cordial identificou aumento de 100% a 120% nos sinistros fatais em cruzamentos, atribuído ao salto na velocidade média — a faixa, na prática, virou um corredor de aceleração. Outras frentes seguem em construção: projetos no Senado que obrigam plataformas de aplicativo a oferecer seguro de acidentes aos entregadores, cursos obrigatórios de pilotagem defensiva defendidos por entidades médicas, e uma proposta da Associação Brasileira de Medicina de Tráfego (ABRAMET) para tornar o acidente de trânsito um agravo de notificação compulsória — o que permitiria, finalmente, políticas públicas baseadas em dados robustos, tanto para motos quanto para patinetes e bicicletas elétricas.

O papel do cooperativismo

As cooperativas médicas estão numa posição única para antecipar esse risco: monitorar sinistros por causa, como já faz a Unimed CSF, orientar reajustes com mais precisão e direcionar prevenção para onde o risco cresce mais rápido. O problema também atravessa cooperativas de transporte — muitos condutores atingidos são trabalhadores por aplicativo — e de crédito, que podem ampliar o acesso desses trabalhadores a seguros pessoais e a financiamento de equipamentos de proteção.

Cabe à OCB-RJ articular essa resposta: levar ao poder público a proposta de tornar o acidente de trânsito um agravo de notificação compulsória, incentivar o compartilhamento de dados de sinistralidade entre cooperativas de saúde do estado, e apoiar parcerias com plataformas de entrega para campanhas de segurança e acesso a equipamentos de proteção. Para o cooperativismo, agir cedo sobre essa epidemia não é caridade — é gestão de risco.

Este texto resume, sob a ótica do cooperativismo, o artigo técnico “A Nova Epidemia Silenciosa”, de Gilson de Souza Lima (Unimed Centro Sul Fluminense, agosto de 2026). O artigo integral, com todas as fontes e propostas detalhadas, está disponível com o autor e com a Unimed Centro Sul Fluminense.