Gestão democrática fortalece governança e pertencimento

No extremo norte do Brasil, na foz do Rio Amazonas, o açaí está na cultura e na base da economia das comunidades ribeirinhas. Em um mercado historicamente controlado por atravessadores – que compram o produto e distribuem para o mercado – um grupo de extrativistas se uniu para mudar essa realidade e criou a cooperativa Amazonbai. Em vez de entregar seu açaí para intermediários, passaram a ser donos do próprio negócio, com direito a voz e voto.

Uma das bases dessa transformação foi a possibilidade de decidir em conjunto sobre o destino do fruto de seu trabalho, uma garantia prevista em lei (nº 5.764) e traduzida no segundo princípio do cooperativismo: Gestão democrática. Segundo a Aliança Cooperativa Internacional (ACI), ele estabelece que as cooperativas sejam controladas por seus próprios membros, com participação ativa na definição das políticas internas e nas decisões que orientam o futuro do negócio.

Cooperados da Amazonbai “Na Amazonbai, a gestão democrática não é apenas um conceito no papel, ela acontece na prática. Aqui,cada pessoa vale um voto. Não importa o tamanho da sua produção, todos têm o mesmo direito de decidir. Isso garante justiça, equilíbrio e fortalece a união do grupo. As nossas assembleias são espaços de diálogo,onde discutimos prestação de contas, planejamentos, investimentos, novos produtos e novos mercados”, conta a vice-presidente da cooperativa, Gabrielle Santos Corrêa.

Na cooperativa macapaense e nas outras 4,3 mil em todo o Brasil, a gestão democrática garante que as organizações cooperativistas sejam, de fato, uma sociedade de pessoas, e não apenas uma empresa com estrutura jurídica diferenciada. “É a participação, a deliberação e a representação dos cooperados que define as diretrizes finais da organização e cumpre sua finalidade essencial: a satisfação das necessidades econômicas, sociais e culturais dos seus membros”, explica o professor adjunto na Universidade Federal do Acre (Ufac) Deivid Forgiarini, que se dedica há mais de uma década a pesquisas sobre identidade, democracia e gestão cooperativistas.

Segundo ele, a gestão democrática é construída a partir de três dimensões: participativa (envolvimento direto e ativo dos cooperados em todas as etapas do processo decisório); deliberativa (construção coletiva das decisões por meio do debate racional, inclusivo e orientado pelo consenso); e, por fim, a representativa (delegação de poder a representantes eleitos).

deivid forgiarini c1275Professor Deivid Forgiarini “O princípio democrático é o mecanismo pelo qual os interesses individuais são transformados em decisões coletivas legítimas, garantindo que a organização sirva ao bem comum, e não a grupos específicos”, afirma o pesquisador.

Como tudo no cooperativismo, os princípios não existem isoladamente. No caso da gestão democrática, sua aplicação está relacionada à transparência, educação e autonomia, que também estão na base conceitual do movimento. Em suas pesquisas recentes, o especialista identificou, por exemplo, que a legitimidade das decisões democráticas nas cooperativas depende diretamente da qualidade da informação disponível aos cooperados.

“A habilidade de participar ativamente em processos democráticos precisa ser desenvolvida, cultivada e continuamente fortalecida. A educação cooperativista é o que transforma um associado formal em um cooperativista de verdade, alguém capaz de participar com qualidade, deliberar com responsabilidade e representar com legitimidade”, destaca Forgiarini.

Participação e resultados 

Uma gestão efetivamente democrática traz avanços sólidos para a cooperativa e para os associados. A democracia traz legitimidade para as decisões, fortalece a consciência coletiva e a resiliência organizacional, além de consolidar inovação, aprendizado e maiores impactos sociais.

De acordo com o professor da UFAC, entre os reflexos positivos da gestão democrática estão governança mais legítima e fortalecimento da cultura cooperativista, além de benefícios externos, como maior protagonismo para os cooperados e contribuição para a democracia na sociedade.

Na Amazonbai esses impactos são observados na prática. Em nove anos desde a fundação da coop, a vice-presidente conta que a participação efetiva dos cooperados nas decisões tem trazido ganhos não só para o negócio, mas para todo o território ribeirinho. “A Amazonbai não é apenas uma cooperativa que comercializa açaí. Ela representa famílias, comunidades, tradição e desenvolvimento local. Quando a gestão é democrática e participativa, nós fortalecemos esse vínculo com o território e mostramos que o crescimento econômico pode caminhar junto com responsabilidade social”, afirma Gabrielle Corrêa.

Desafios democráticos

A vice-presidente da Amazonbai reconhece que a criação de consensos nem sempre é fácil, e demanda um exercício constante de escuta e respeito entre os cooperados e gestores. Outro desafio, segundo ela, é manter o engajamento e a participação nas assembleias, garantido representatividade efetiva e decisões que atendam aos interesses da coop.

“A gestão democrática não é o caminho mais fácil, mas é o mais sólido. Ela constrói uma cooperativa mais forte, mais transparente e mais preparada para enfrentar desafios.  Quando todos participam, todos se sentem parte”, analisa.

O professor da Ufac afirma que é possível fortalecer o princípio da gestão democrática nas cooperativas com investimentos em educação e cultura cooperativistas – com programas sobre a história e os fundamentos do coop; com a criação de núcleos, comitês e grupos de trabalho abertos aos cooperados e fortalecimento da transparência na gestão.

“Também valorizem o diálogo intergeracional: o valor democrático atrai jovens. Iniciativas que integrem diferentes gerações fortalecem a renovação do movimento e garantem sua sustentabilidade a longo prazo”, sugere o especialista.

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Leia a primeira matéria da série especial Princípios do Cooperativismo, sobre Adesão livre e democrática.

Fonte: Somos Cooperativismos – Sistema OCB